A decisão começa antes da apresentação

Uma demonstração pode mostrar uma interface organizada, uma automação funcionando e uma resposta gerada em segundos. A decisão de contratar exige outra compreensão: onde isso entra na operação, quem será afetado e o que precisa melhorar para justificar o investimento.

Em uma coluna publicada no Startups em agosto de 2026, Maria Teresa Fornea discute a dificuldade de empresas de IA em tornar sua proposta compreensível para quem compra. É uma leitura da autora sobre o mercado, que ajuda a formular uma pergunta relevante para produtos digitais em geral: o comprador consegue explicar o valor da solução depois que a apresentação termina? Leia a coluna no Startups.

Nossa proposta é usar essa pergunta como um teste de clareza. Ela aproxima posicionamento, descoberta e desenho do produto, porque obriga a identificar qual mudança merece ser construída e como ela pode ser percebida.

Descreva a situação que precisa mudar

Considere um exemplo hipotético: uma empresa oferece um assistente que organiza solicitações comerciais. Apresentar a solução como uma plataforma inteligente ainda deixa perguntas abertas. O que está difícil hoje? A equipe perde contexto? Precisa conferir a mesma informação em vários lugares? Encaminha pedidos incompletos?

Uma descrição mais verificável seria: ajudar o time a receber um pedido com as informações necessárias para que a próxima pessoa consiga avaliá-lo. A partir daí, é possível discutir quais dados faltam, que conferências continuam humanas e onde uma automação seria útil.

Essa formulação também pode revelar que o problema está no formulário, no processo ou na responsabilidade pelo atendimento. O diagnóstico pode mudar o que será construído.

Prepare uma ficha que atravesse as áreas

Quem usa, quem contrata e quem mantém um produto podem ser pessoas diferentes. Uma ficha curta ajuda a tornar explícito o que cada uma precisa compreender.

Em que situação a solução entra?
Uma tarefa recorrente e a dificuldade observável
O que muda para a pessoa?
Uma diferença concreta no trabalho ou na experiência
Como vamos reconhecer a melhora?
Uma evidência a observar antes e depois
O que precisa existir para funcionar?
Informação, integração, tempo e responsabilidade
Qual é o limite da proposta?
Exceções, dependências e decisões que continuam humanas

No exemplo, a evidência poderia ser a necessidade de pedir informações novamente antes de encaminhar uma solicitação. Isso é uma sugestão de observação, sem meta ou ganho presumido. A equipe precisaria conhecer o cenário atual e definir o que considera uma melhoria relevante.

Teste a compreensão antes de ampliar o discurso

Apresente a proposta a alguém que represente o público e peça que descreva quando usaria a solução, o que esperaria receber e o que ainda precisaria saber. Registre as respostas sem completar as lacunas pela pessoa. Uma explicação que só funciona com a presença do vendedor merece investigação.

A entrevista de Jeanette Mellinger ao First Round Review reforça a importância de investigar necessidades antes de confundir velocidade de construção com avanço do negócio. Esse princípio serve como referência; a ficha acima é um roteiro da Antídra para organizar a discussão. Leia a entrevista no First Round Review.

Clareza, por si só, não comprova demanda. Se o público entende a proposta e ainda não encontra motivo para adotá-la, o próximo passo pode ser rever a prioridade, o público ou a solução. A evidência deve poder mudar a decisão.

Referências consultadas

  1. A IA acelera o GTM, mas quem escolhe o caminho?

    Maria Teresa Fornea, Startups. Coluna de opinião de 25/08/2026.

  2. Go Deep to Build Fast: A Research Thinking Toolkit to Speed Up the Discovery Phase

    First Round Review. Entrevista com Jeanette Mellinger, publicada em 02/10/2025.

O exemplo é hipotético. A ficha é um instrumento de discussão e precisa ser confrontada com evidências do produto.